01 maio 2005

Maria, Maria.

- "Acorda, menina! Sai desse mundo de faz de conta".

Era minha avó. Percebia que eu estava "viajando" e me chamava de volta à realidade.

- "Me deixa, vó!"

Nós nos dávamos muito bem. Nos amávamos. Ela era muito moderna para a época. Eu adorava isso nela. Achava lindo que eu usasse mini-saia. Meu pai implicava, e ela defendia.

- "Deixa a menina. O que é bonito é para ser mostrado. Essa menina tinha que ser miss."

Claro que ela me via com olhos de avó. Os olhos do amor. Aliás, lindos olhos verdes, que só minha prima mais velha herdou. Para ela, eu só tinha qualidades...para mim, ela era perfeita. Eu também a olhava com os olhos do amor.

Saíamos muito juntas. falávamos sobre tudo. Namorados, homens, política, carros, crimes, sexo. Tudo. Até beijo de "selinho" nos dávamos.

Vaidosíssima, era incapaz de atender a porta sem antes tirar o avental, ajeitar os cabelos e dar pequenos beliscões nas bochechas. Eu achava tanta graça naquele gesto. Era tão lindo. Eu era capaz de ficar minutos olhando para ela. Tudo o que eu mais queria era ser parecida com ela.

- "Acorda, menina! Sai desse mundo de faz de conta".

O tempo passou, casei, tive meus filhos.Nunca ficamos longe uma da outra. Todas as quartas-feiras ela passava o dia comigo. Acompanhava a rotina da casa. Ia comigo levar os meninos à escola, à natação, fazíamos supermercado. Os meninos a amavam. A Bisa. A Bisa bonita.

Nesses dias, ela me dava pequenos "toques" sobre arrumar-me mais, preocupar-me menos, sonhar mais, viver mais, afinal, dizia, tudo está nos eixos. - "Você tem se esquecido de si mesma". Hoje, compreendo. Na verdade ela queria dizer: - Sonhe, volte a sonhar. Sonhar é bom.

Minha avó morreu em 1986. Meus filhos se lembram bem dela. Tivereram esse privilégio. Alguns meses antes de sua morte, eu ia visitá-la, levando os meninos. Ela me olhava longamente. Hoje sei que a sonhadora era ela. Nessas horas, eu é quem dizia: -"Acorda, vó! Sai desse mundo de faz de conta."

Hoje meus filhos têm, como eu tive, uma avó maravilhosa. Eu? Faço de conta que sou feliz. Talvez seja mesmo feliz, na maior parte do tempo. Reaprendi a sonhar. Sonhar é bom.

Faz de conta, vó Maria, que a cada vez que eu sentir saudade e pensar em você, os anjos soprem no seu ouvido a nossa música:

Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria.
Mas é preciso ter manha,
é preciso ter graça, é preciso ter sonho, sempre.
Quem traz na pele essa marca,
possui a estranha mania de ter fé na vida


(mariazinha cremasco)